quarta-feira, 13 de junho de 2012

DEBATE NA ESCOLA - POLÍTICA: TEORIA E PRÁTICA

No dia 01 de junho no Colégio Estadual Alberto da Silva Paraná, fizemos o debate "Política teoria e prática", organizado pelo professor de Filosofia Ronaldo Mainardes Lemes Pinheiro. O debate foi em forma de mesa redonda sendo composta pela diretora do Colégio Antoniela de Oliveira, pelo professor de História Rosnei Felix, pelo Professor de Sociologia e Pedagogia para a Formação de Docentes Ronaldo Barbosa e pelo Professor de português Vilson Barbato.
Cada Professor teve 10 minutos para expor sua concepção de política baseado em seus estudos e na prática que conhece sobre política. O professor Ronaldo Barbosa mostrou a compreensão sociológica e pedagógica, já o professor Rosnei enfatizou as mudanças de visão de política na História. Os professores Vilson e Antoniela que já foram candidatos a vereadores no município falaram do ideal de política e a importância da Democracia.
Após os alunos fizeram perguntas para os membros da mesa. Os alunos se mostraram interessados e as perguntas foram bem objetivas e deixaram os professores satisfeito. O evento durou cerca de duas horas e meia. 

“ A política precisa de ética e de pessoas comprometidas”
 Prof. Vilson Barbato
  
 “ A política deve ser feita com mudanças e vontade de fazer”
 Prof. Antoniela Oliveira 

“ Em cada período da história houveram concepções diferentes de política”
 Prof. Rosnei Félix
  
“A compreensão sociológica de política é entendida pelo meio onde os indivíduos vivem e como se organizam”
 Prof. Ronaldo Barbosa













DEBATE SOBRE POLÍTICA NA CÂMARA DE VEREADORES




No dia 24 de maio do ano de 2011, na Câmara municipal de Ventania, os alunos da Formação de Docentes e do 2° ano do Ensino Médio do Colégio Alberto da Silva Paraná, após estudarem nas aulas de Filosofia (Prof. Ronaldo Mainardes Lemes Pinheiro) o conteúdo de Filosofia Política, se encontraram com os vereadores municipais, representantes em nosso meio de poder legislativo para um debate sócio-político educacional, com o objetivo de conceituar Política, democratizar o conhecimento e debatermos educação.


A Câmara municipal lotou com a presença dos alunos e professores; Prof. Antoniela de Oliveira, Prof. Claudia Carneiro, Prof. Cristiane de Souza, Prof. Dayse Massera, Prof. Elisa Braga, Prof. Julio César, Prof. Palmiro Miranda, Prof. Sandra Bracisiewrcz, Prof. Silvano Carneiro, Prof°. Ronaldo Barbosa, Prof. Vilson Barbato, Prof. Willian Oliveira e a Diretora da gestão Prof. Angela Braga com a Vice-diretora Prof. Adriana Bueno e algumas pessoas da comunidade.


Participaram  do debate o excelentíssimo senhor Jaime Bracisiewrcz, presidente da Câmara e os vereadores Izaías Carneiro, Paulo Lara, Leda Gomm e Rosana Bittencourt. Esses representantes políticos do município se colocaram a disposição e foram solícitos em deixarem seus afazeres para esse encontro.






O debate só foi possível graças ao auxilio e colaboração das professoras Claudia e Sandra, que com os alunos da Formação de Docentes cuidaram de todos os detalhes do evento.

Começamos a solenidade com um aluno da Formação de Docente apresentando a proposta do debate e lendo uma citação de Aristóteles, tratando do ideal político. Passamos o vídeo: Analfabeto Político de Bertolt Brecht e cada vereador teve dez minutos para definir política. Após propomos que os vereadores falassem um pouco sobre Educação, porém antes algumas alunas do colégio entraram com cartazes para melhoria educacional.
Constatamos o esforço de todo o corpo docente e discente na preparação desse evento. Nessa perspectiva todos estavam abertos para o debate com um interesse comum: fazer a democracia acontecer! Assim como na Ágora grega, todos tiveram voz e vez, os alunos mostraram suas reivindicações e terminamos com uma bela confraternização preparado pelas turmas da Formação de Docente.




Reportagem da RPC sobre Ventania e entrevistas com alunos sobre a consciência política.





FILOSOFIA POLÍTICA: O QUE É POLÍTICA (CEPMR)

      Os alunos do 2° A Vespertino do Colégio estadual Pedro Marcondes Ribas - Novo Barro Preto apresentaram seus trabalhos de Filosofia Política, com o título: O que é Política? pesquisaram conceitos de Política, a Filosofia Política e seus principais teóricos e entrevistaram representantes políticos do município (Vereadores, Pré-candidatos, professores, líderes comunitários e religiosos) e eleitores, buscando conceituar Política.
 




FILOSOFIA POLÍTICA: O QUE É POLÍTICA (CEASP)

Os alunos do 2° A matutino do Colégio estadual Alberto da Silva Paraná apresentaram seus trabalhos de Filosofia Política, com o título: O que é Política? pesquisaram conceitos de Política, a Filosofia Política e seus principais teóricos e entrevistaram representantes políticos do município (Vereadores, Pré-candidatos, professores, líderes comunitários e religiosos) e eleitores, buscando conceituar Política.







quinta-feira, 10 de maio de 2012

ENTRE ATENAS E JERUSALÉM: A FILOSOFIA LEVINASIANA


Entre Atenas e Jerusalém: A Filosofia levinasiana.

Prof. Ronaldo Mainardes Lemes Pinheiro

« Il y a eu plusieurs Lévinas : le philosophe, le penseur, l´ exégète, l´ enseignant, le 
prisonnier... » (Salomon Malka)


Para compreendermos o pensamento de Emmanuel Lévinas, nós precisaremos contextualizá-lo na sua maneira de pensar judaica e no seu contato com o Ocidente, fundamentada na cultura grega. Assim, a filosofia levinasiana se encontra entre a filosofia grega e a sabedoria judaica e, ao refletir a Ética, nasce o conceito do rosto do outrem como uma forma original de pensar a alteridade filosoficamente.
Lévinas carrega em sua filosofia uma inspiração judaica, na qual não podemos negar, mas não podemos classificá-lo como um filósofo judeu, como ele mesmo se define: “não sou um pensador judeu, sou um pensador”. Ou seja, ele era um filósofo e também um judeu praticante, que comentava e escrevia sobre o judaísmo de maneira espetacular assim como desenvolvia a sua filosofia. As obras filosóficas e as obras judaicas de Lévinas na França estão publicadas em diferentes editoras e ele sempre foi cauteloso ao tratar o seu judaísmo no campo filosófico. O que Lévinas almejava entre a Filosofia e o Judaísmo, era a versão da mensagem Ética do Judaísmo para a Filosofia, sendo a filosofia grega aquela que evidência o argumento, a razão.
Para Lévinas a sociedade ocidental é ‘hipócrita’, pois tenta abarcar ao mesmo tempo os filósofos e os profetas, que não são sincrônicos, mas diacrônicos. Os filósofos e os teólogos não compreenderam esta dinâmica e não se deixaram ouvir pelo ‘dizer’ da Bíblia e da Filosofia. Sendo assim, para ele a tarefa da Filosofia seria: “a sabedoria do amor a serviço do amor, além do Ser, no serviço da Justiça”.
Deste modo, a filosofia levinasiana esta ligada a sabedoria judaica e a filosofia grega, tendo como base a alteridade, para uma compreensão ética na Filosofia.
A Filosofia de Emmanuel Lévinas surge em meio aos traumas e às violências do século XX, ou seja, as duas grandes Guerras Mundiais e a experiência da Shoa (Holocausto),assim ele reflete: O que levou a tudo isso?
Questionando a ontologia ocidental como filosofia primeira, Lévinas fundamenta a sua filosofia ética, colocando em questão a totalidade, na qual a filosofia ocidental nos levou, concluindo ser a reflexão ontológica.
Emmanuel Lévinas nasceu no berço de uma família judia da pequena burguesia da Lituânia (no dia 12 de janeiro de 1906 na cidade de Kaunas - na época Kovno - na fronteira com a Letônia e com a Rússia). Seu pai tinha uma livraria em sua pequena cidade. Ele cresceu em meio aos livros e teve acesso à cultura Russa e leu Dostoïevski e outros autores, afirmando que por meio da literatura e da Bíblia chegou à Filosofia.
Em 1923, aos 17 anos foi para França, onde aprendeu a língua francesa e começou seus estudos de Filosofia na Universidade de Strasbourg. Seguiu os cursos e conheceu Charles Blondel e tornou-se grande amigo de Maurice Blanchot que durante a Segunda Guerra Mundial ajudou sua família. Em pouco tempo na França, ele se torna apaixonado por esta terra acolhedora, assim ele descreveu em um bom francês sua imagem e sua experiência. « Elle fut la découverte d`une nation á laquelle on peut appartenir par l´esprit et par le coeur autant que par les racines ».
Decidindo-se aprofundar em Filosofia, entre os anos de 1928 – 1929, Lévinas foi para Fribourg, onde se tornou aluno dos filósofos Edmund Husserl e Martin Heidegger.
Emmanuel Lévinas foi quem introduziu a Fenomenologia na França em 1930 e traduziu o texto Meditações cartesianas de Edmund Husserl para a língua francesa e no mesmo ano publicou La Théorie de l´intuition dans la phénoménologie de Husserl, sendo a primeira obra que divulgou aos filósofos franceses a fenomenologia de Husserl.
Em seus estudos da fenomenologia de Husserl, o jovem filósofo encontrou um rigor do método que o seduziu e na qual ele se manteve fiel em sua caminhada, mesmo quando ele se afastaria dela. Na busca da fenomenologia, Lévinas foi para Alemanha ver Husserl, mas acabou vendo Heidegger.
Todas as manhãs, Lévinas se arrumava para ir ao lotado anfiteatro da Universidade de Fribourg para escutar o autor de Sein und Zeit. Heidegger lhe marcou, estando presente em suas obras e em sua cabeça;

Foi uma fascinação e repulsão juntas desde o primeiro dia, admiração que jamais foi desmentida por causa da obra Ser e Tempo, mas houve a ruptura que foi um tanto quanto radical, em 1933 com o discurso do Reitorado (MALKA 2003 p. 23.)


O comprometimento de Heidegger com o Nacional Socialismo foi traumático para Lévinas e determinou o caminho de suas obras, pois pensava em publicar um livro sobre Heidegger, mas o abandou, por não estar de acordo que o filósofo admirado, tinha se tornado nazista, por mais curto que tenha sido este período.
 Na França, antes da guerra, Lévinas assimilou os métodos e os pensamentos filosóficos de Husserl e Heidegger, que eram novos para si e para todos os filósofos franceses e fez algumas publicações, mas ele reservou o seu lado judeu dentro de si.
Quando explodiu a II Guerra Mundial em 1939, Lévinas foi capturado e feito prisioneiro pelos alemães. A sua esposa e sua filha se refugiaram na casa de amigos como Maurice Blanchot e em conventos de religiosasLévinas foi obrigado passar cinco anos em exílio e viu a violência nazista pela qual nunca pôde esquecer a marca do ódio do homem contra o outro homem. Foi no cativeiro que escreveu a maior parte da sua obra de L`existence á l`existant que fora publicado em 1947, dois anos após o final da guerra.
Heidegger, o filósofo que ele admirava, foi feito reitor da Universidade de Fribourg e pronunciou a servidão ao poder nazista assim que aderiu ao nacional-socialismo (partido dos nazistas). Lévinas foi muito influenciado por Heidegger, de quem carregou grande admiração pela sua representatividade na história da filosofia. Mas depois de Shoa, Lévinas se afastou desta filosofia do ser, que pela filosofia racionalista ocidental é “incapaz de sair de si mesma”.
Esta experiência marcou Emmanuel Lévinas:

A guerra, a experiência do cativeiro em um stalag em Fillinfsbotel, perto de Hanovre, e depois na Libération, a descoberta da morte dos seus, na Lituânia. Todos massacrados, seu pai, sua mãe, seus irmãos... Tudo isto determinará o seu caminho. (MALKA, 2003. p.24)

Simon Critchley conta que Emmanuel Lévinas, em uma das raras observações autobiográficas, refere que sua vida fora dominada pela memória do horror nazista.
Tendo sobrevivido aos massacres do Lendemain de la Libération, acontecimento que Lévinas sempre chamou por esse nome e sempre escreveu com letra maiúscula – ele se empenha na reconstrução espiritual do Judaísmo na França, pelo estudo sistemático do Talmud, que não tinha a intenção filosófica, mas acabara por fecundar a filosofia levinasiana.
Depois da guerra, o filósofo se torna educador. O introdutor da fenomenologia na França nega uma carreira universitária e se torna o diretor da École normale israélite orientale, o que sentiu como um ‘chamado’ na época. Neste período, conheceu o senhor Chouchani, com quem foi estudar o Talmud e lhe fez redescobrir a sabedoria judaica. Lévinas então começou a dar um curso sobre Rachi, fez bastantes publicações e deu várias palestras, como por exemplo, sobre “O nome de Deus nas leituras talmúdicas” em Roma, a pedido de um filósofo próximo do papa Paulo VI e começou a dar aulas nas universidades de Poitiés, na Sorbonne Paris e em Fribourg, na Suíça.
Na atmosfera intelectual de Paris pós-guerra, dominada pelo existencialismo de Jean Paul Sartre, as obras de Emmanuel Lévinas atraiam pouco interesse, mas mesmo assim, Lévinas brincava que sua imortalidade filosófica estava segura, pois fora ele que introduzira Sartre na fenomenologia na década de 1930.
Foi a partir das experiências feitas da Shoa, na Segunda Guerra mundial que Lévinas se perguntou enquanto judeu, onde ele se encontrava na filosofia ocidental ou se a tragédia vivida não o questionava a fazer outra reflexão, dando valor ao outro, pois pela concepção ontológica, segundo ele, o homem continuava prisioneiro de um mundo tragicamente insensato, marcado pela violência e não libertava ninguém.
Durante a Shoa e as outras calamidades do século XX, para Lévinas, houve um fracasso em se reconhecer a humanidade do outro, onde a pessoa se tornou um rosto em meio à multidão e as interações sociais não foram sustentadas pelas relações éticas, sendo que a relação ética é aquela em que eu encaro a outra pessoa e guardo distância, porque a distância implica respeito e essa relação é que o nacional-socialismo perdeu com seu antissemitismo. Lévinas redescobre a sabedoria bíblica do respeito do outro, que fundamentou sua filosofia ética, podendo ser resumida nas palavras, como sempre dizia: “Après vous, Monsieur”, ou seja, pelos atos cotidianos de hospitalidade, cordialidade e gentileza.
Até a década de 1960 Lévinas foi conhecido no cenário filosófico como interprete de Husserl.
 Lévinas é essencialmente um fenomenológo, assim ele aplica o método fenomenológico na vida cotidiana de uma forma filosoficamente respeitada, mas a sua filosofia esta associada à tese da ética como primeira filosofia, sendo seu esforço descrever a relação com a outra pessoa, que ele chamou de relação “face - a- fase”, não se pretendendo a questão do ser - metafísico, mas o problema cotidiano e concreto do ser humano, a relação ética
.Em contato com fontes como Franz Rosenzweing e inspirando-se espiritualmente em Martin Buber, reafirmou sua identidade judaica e refletiu a filosofia ética, se baseando nos eventos que tinha vivido e bebendo nas fontes do judaísmo, como as tradições mosaicas e talmúdicas, assim reconsiderando inteiramente a tradição filosófica ocidental.
Em uma entrevista ao Le Monde, Lévinas mostrou sua redescoberta da ética no pensamento judaico:

Descobri através do pensamento judaico que a ética não é uma simples região do ser. O Encontro com o outro nos oferece o sentido primeiro, e nesse prolongamento encontramos todos os outros. A Ética é uma experiência decisiva. (LÉVINAS Apud BORDIN, 1998 p.27)

Ainda invocou seu escritor da sua adolescência, Dostoievski e as Sagradas Escrituras nos livros dos profetas, que marcam sua noção de responsabilidade, um dos pontos chaves de sua filosofia.

Se olharmos de perto os textos proféticos, perceberemos que o outro é descrito ali sempre como o mais fraco de nós. Tenho sempre uma obrigação para ele. Dostoievski, em irmãos Karamazov, diz que somos todos responsáveis por todo o mundo, e eu próprio ainda mais que os outros. Sou sempre responsável, cada um não pode ser trocado pelo outro. Aquilo que faço, ninguém pode fazê-lo em meu lugar. O núcleo da singularidade é a responsabilidade. (LÉVINAS Apud BORDIN 1998 p.28)

Indo sempre ao encontro do judaísmo, refletiu a Ética, que se dá quando os israelitas aceitam a Tora, que gera a responsabilidade, a qual vem antes da liberdade. Neste ponto, a responsabilidade é compreendida como responsabilidade para com o outro, que  para Lévinas não é questão do sentido do ser, mas a da alteridade.
“Do ponto de vista filosófico, a tarefa de Lévinas não foi a de escrever uma nova Ética, mas de mostrar que a perspectiva Ética deve ser o ponto de partida de toda a Filosofia”. A relação com o outro na filosofia levinasiana é uma tomada de consciência que gera conhecimento segundo uma responsabilidade ética para com o outro.
Assim, a filosofia e a história de Emmanuel Lévinas passaram por várias etapas para encontrar a reflexão ética e se mostrar original na forma de compreensão do outro e do rosto, inspirando-se na filosofia e na sabedoria judaica, que é sua marca na filosofia contemporânea.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Textos filosóficos

ARENDT, H. O que é política? Tradução Reinaldo Guarany. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998 p.25 - 28.

O preconceito contra a política e o que é de fato política hoje. 

O perigo é a coisa política desaparecer do mundo. Mas os preconceitos se antecipam; ‘jogam fora a criança junto com a água do banho’, confundem aquilo que seria o fim da política com a política em si, e apresentam aquilo que seria uma catástrofe como inerente à própria natureza da política e sendo, por conseguinte, inevitável. Por trás dos preconceitos contra a política, estão hoje em dia, ou seja, desde a invenção da bomba atômica, o medo da Humanidade poder varrer-se da face da Terra por meio da política e dos meios de violência colocados à sua disposição, e – estreitamente ligada a esse medo – a esperança da Humanidade ter juízo e, em vez de eliminar a si mesma, eliminar a política – através de um governo mundial que transforme o Estado numa máquina administrativa, liquide de maneira burocrática os conflitos políticos e substitua os exércitos por tropas da polícia. Na verdade, essa esperança é totalmente utópica quando se entende a política em geral como uma relação entre dominadores e dominados. Sob tal ponto de vista, conseguiríamos, em lugar da abolição da política, uma forma de dominação despótica ampliada ao extremo, na qual o abismo entre dominadores e dominados assumiria dimensões tão gigantescas que não seria mais possível nenhuma rebelião, muito menos alguma forma de controle dos dominadores pelos dominados.(...) Mas, se se entender por ‘político’ o âmbito mundial no qual os homens se apresentam sobretudo como atuantes, conferindo aos assuntos mundanos uma durabilidade que em geral não lhes é característica, então essa esperança não se torna nem um pouco utópica. Na História, conseguiu-se freqüentemente varrer do mapa o homem enquanto ser atuante, mas não em escala mundial – seja na forma da tirania que hoje nos dá a impressão de estar fora de moda, na qual a vontade de um homem ‘exige pista livre’; seja na forma moderna de dominação total, na qual se deseja liberar os processos e ‘forças históricas’ impessoais supostamente mais elevadas e escravizar os homens para elas. Na verdade, o a-político no sentido mais profundo dessa forma de dominação mostra-se juntamente na dinâmica que lhe é característica e que ela desencadeia, na qual, cada coisa e tudo antes tido como ‘grande’ hoje pode cair no esquecimento – se for para manter o movimento em impulso, deve cair mesmo. O que não pode servir para acalmar nossas preocupações ao constatarmos que, nas democracias de massa, sem nenhum terror e de modo quase espontâneo, por um lado toma vulto uma impotência do homem e por outro aparece um processo similar de consumir e esquecer, como se girando em torno de si mesmo de forma contínua, embora esses fenômenos continuem restritos, no mundo livre e não arbitrário, à coisa política em seu sentido mais literal e à coisa econômica.

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(Platão, A República, livro VII)





Depois disto – prossegui eu – imagina a nossa natureza, relativamente à educação ou à sua falta, de acordo com a seguinte experiência. Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estende a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente; são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência, por detrás deles; entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no gênero dos tapumes que os apresentadores de fantoches colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.
– Estou a ver – disse ele.
– Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de lavor; como é natural, dos que os transportam, uns falam, outros seguem calados.
– Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que tu falas – observou ele.
– Semelhantes a nós – continuei -. Em primeiro lugar, pensas que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?
– Como não – respondeu ele – se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?
– E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?
– Sem dúvida.
– Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?
– É forçoso.
– E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da sombra que passava?
– Por Zeus, que sim!
– De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não pensavam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.
– É absolutamente forçoso – disse ele.
– Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das cadeias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados à sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria, se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais?
E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?
– Muito mais – afirmou.
– Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar refúgio junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?
– Seria assim – disse ele. 
– E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?
– Não poderia, de fato, pelo menos de repente.
– Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidas na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de contemplar o que há no céu, e o próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.
– Pois não!
– Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.
– Necessariamente.
– Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.
– É evidente que depois chegaria a essas conclusões.
– E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?
– Com certeza.
– E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prêmios para o que distinguisse com mais agudeza os objetos que passavam e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos, e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele teria saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo “servir junto de um homem pobre, como servo da gleba”, e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões e viver daquele modo?
– Suponho que seria assim – respondeu – que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.
– Imagina ainda o seguinte – prossegui eu –. Se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?
– Com certeza.
– E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele que, por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzí-los até cima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?
– Matariam, sem dúvida – confirmou ele.
– Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar se à tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz da fogueira que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirás a minha expectativa, já que é teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira.
Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a idéia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que, no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.



(Platão, A República, livro VII)Eis o texto do Prefácio do livro "O Príncipe" de Nicolau Maquiavel.
(texto baixado do site: www.dominiopublico.gov.br, onde se encontra o texto do filósofo na integra).


O PRÍNCIPE


Nicolau Maquiavel


Costumam, o mais das vezes, aqueles que desejam conquistar as graças de um Príncipe, trazer-lhe aquelas coisas que consideram mais caras ou nas quais o vejam encontrar deleite, donde se vê amiúde serem a ele oferecidos cavalos, armas, tecidos de ouro, pedras preciosas e outros ornamentos semelhantes, dignos de sua grandeza. Desejando eu, portanto, oferecer-me a Vossa Magnificência com um testemunho qualquer de minha submissão, não encontrei entre os meus cabedais coisa a mim mais cara ou que tanto estime, quanto o conhecimento das ações dos grandes homens apreendido através de uma longa experiência das coisas modernas e uma contínua lição das antigas as quais tendo, com grande diligência, longamente perscrutado e examinado e, agora, reduzido a um pequeno volume, envio a Vossa Magnificência. E se bem julgue esta obra indigna da presença de Vossa Magnificência, não menos confio que deva ela ser aceita, considerado que de minha parte não lhe possa ser feito maior oferecimento senão o dar-lhe a faculdade de poder, em tempo assaz breve, compreender tudo aquilo que eu, em tantos anos e com tantos incômodos e perigos, vim a conhecer. Não ornei este trabalho, nem o enchi de períodos sonoros ou de palavras pomposas e magníficas, ou de qualquer outra figura de retórica ou ornamento extrínseco, com os quais muitos costumam desenvolver e enfeitar suas obras; e isto porque não quero que outra coisa o valorize, a não ser a variedade da matéria e a gravidade do assunto a tornarem-no agradável. Nem desejo se considere presunção se um homem de baixa e ínfima condição ousa discorrer e estabelecer regras a respeito do governo dos príncipes: assim como aqueles que desenham a paisagem se colocam nas baixadas para considerar a natureza dos montes e das altitudes e, para observar aquelas, se situam em posição elevada sobre os montes, também, para bem conhecer o caráter do povo, é preciso ser príncipe e, para bem entender o do príncipe, é preciso ser do povo. Receba, pois, Vossa Magnificência este pequeno presente com aquele intuito com que o mando; nele, se diligentemente considerado e lido, encontrará o meu extremo desejo de que lhe advenha àquela grandeza que a fortuna e as outras suas qualidades lhe prometem. E se Vossa Magnificência, das culminâncias em que se encontra, alguma vez volver os olhos para baixo, notará quão imerecidamente suporto um grande e contínuo infortúnio.
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Política e Jardinagem

Rubem Alves – Filósofo e educador

De todas as vocações, a política é a mais nobre. Vocação, do latim vocare, quer dizer chamado. Vocação é um chamado interior de amor: chamado de amor por um ‘fazer’. No lugar desse ‘fazer’ o vocacionado quer ‘fazer amor’ com o mundo. Psicologia de amante: faria, mesmo que não ganhasse nada.


          Política’ vem de polis, cidade. A cidade era, para os gregos, um espaço seguro, ordenado e manso, onde os homens podiam se dedicar à busca da felicidade. O político seria aquele que cuidaria desse espaço. A vocação política, assim, estaria a serviço da felicidade dos moradores da cidade.


Talvez por terem sido nômades no deserto, os hebreus não sonhavam com cidades: sonhavam com jardins. Quem mora no deserto sonha com oases. Deus não criou uma cidade. Ele criou um jardim. Se perguntássemos a um profeta hebreu ‘o que é política?’, ele nos responderia, ‘a arte da jardinagem aplicada às coisas públicas’.

O político por vocação é um apaixonado pelo grande jardim para todos. Seu amor é tão grande que ele abre mão do pequeno jardim que ele poderia plantar para si mesmo. De que vale um pequeno jardim se à sua volta está o deserto? É preciso que o deserto inteiro se transforme em jardim.
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Quelques réflexions d'Emmanuel Levinas sur le visage


            Le visage se refuse à la possession, à mes pouvoirs. Dans son épiphanie, dans l'expression, le sensible, encore saisissable se mue en résistance totale à la prise. Cette mutation ne se peut que par l'ouverture d'une dimension nouvelle. En effet, la résistance à la prise ne se produit pas comme une résistance insurmontable comme dureté du rocher contre lequel l'effort de la main se brise, comme l'éloignement d'une étoile dans l'immensité de l'espace. L'expression que le visage introduit dans le monde ne défie pas la faiblesse de mes pouvoirs, mais mon pouvoir de pouvoir. Le visage, encore choses parmi les choses, perce la forme qui cependant le délimite. Ce qui veut dire concrètement : le visage me parle et par là m'invite à une relation sans commune mesure avec un pouvoir qui s'exerce, fût-il jouissance ou connaissance.
                                   Emmanuel Levinas, Totalité et infini, Martinius Nijhoff, 1961, p.172



            Le visage est signification, et signification sans contexte. Je veux dire qu'autrui dans la rectitude de son visage, n'est pas un personnage dans un contexte. D'ordinaire, on est un "personnage" : on est professeur à la Sorbonne, vice-président du Conseil d'Etat, fils d'un tel, tout ce qui est dans le passeport, la manière de se vêtir, de se présenter. Et toute signification, au sens habituel du terme, est relative à un tel contexte : le sens de quelque chose tient dans sa relation à autre chose. Ici, au contraire, le visage est sens à lui seul. Toi, c'est toi. En ce sens, on peut dire que le visage n'est pas "vu". Il est ce qui ne peut devenir un contenu, que votre pensée embrasserait ; il est l'incontenable, il vous mène au-delà.
                                                           Emmanuel Levinas, Ethique et infini, Fayard, 1982, p.91




            La peau du visage est celle qui reste la plus nue, la plus dénuée. La plus nue, bien que d'une nudité décente. La plus dénuée aussi : il y a dans le visage une pauvreté essentielle ; la preuve est qu'on essaie de masquer cette pauvreté en se donnant des poses, une contenance.
                                                           Emmanuel Levinas, Ethique et infini, Fayard, 1982, p.90


quinta-feira, 26 de abril de 2012

A ÉTICA NA EDUCAÇÃO JUDAICA



 Ronaldo Mainardes Lemes Pinheiro  - Professor de Filosofia




“Afim de que de geração em geração, saibamos, e que a última geração que nascerá reconte para as suas crianças”.                    Salmo –  תהילים 78,6

 Como educadores, pais e líderes comunitários. Ficamos com as seguintes dúvidas: Como educar nossas crianças e adolescentes? Somos exemplos para a educação? Como educar moralmente? Devemos educar segundo a nossa fé?
Vendo a Educação judaica, podemos repensar a nossa Educação. A Educação no judaísmo está ligada ao estudo, como forma de oração, então, estudar é estar em oração. Os jovens vão para a sinagoga (lugar de encontro) para estudar a Torah תּוֹרָה)), que do hebraico significa ensinamento (é o livro da lei – o nosso Pentateuco). Mas o que é esse estudar a Torah? É Compreender o ensinamento de D`us e procurar ser um individuo ético. Eis o ponto que queremos discutir – a Ética.
Vemos que no judaísmo, cabe aos pais a responsabilidade da primeira educação, da família dentro do seu lar. Educar a criança dando-lhe fundamento para desenvolvimento moral. Segundo Rashi (Rabino Francês do Séc. XII) “o que a criança diz na rua, é o que ouviu em casa de seu pai e sua mãe”. Dessa maneira, a formação do individuo necessita dos bons exemplos.
O objetivo da Educação judaica, evidente na Torah, é desenvolver indivíduos com a capacidade de refletir sobre os valores éticos, sabendo aplicá-los no seu cotidiano, assim a oração é de suma importância para todo o judeu que recita quatro vezes por dia o Shemá Israel – “Escuta Israel, o Senhor (Adonai) é nosso D`us, o Senhor é um” (Dt, 6,4). Ou seja, o que fortalece o sujeito ético é D`us, fonte do Bem.
De acordo com o filósofo contemporâneo Emmanuel Lévinas, no Shemá se estabelece uma relação de alteridade, bem entendido de uma alteridade ética, de D`us, o totalmente outro com o eu, provocando o eu para essa mesma experiência de alteridade com o outro, ou seja, todo aquele que faz parte do seu cotidiano.
Vários pontos a Educação judaica nos provoca a repensar a nossa, mas não temos como discorrer aqui, porém podemos citar um exemplo: todo judeu é educado a saber confrontar, discutir sobre qualquer assunto da Torah ou “pagão”, assim formando um sujeito intelectual capaz de questionar e criar conceitos, portanto, esse sujeito já possui uma base ética e intelectual dada primeiramente pelos seus pais e posteriormente na sinagoga e na escola.
 Vendo a pintura de Benn (pintor do período da perseguição nazista aos judeus) no começo desse texto, que representa o pai ensinando o seu filho sobre o Eterno (tenho na parede de meu quarto) fiquei estimulado a escrever esse pequeno artigo, com o objetivo de provocar a todos a pensar a educação já que nos encontramos em um período de crise, em que não sabemos de quem é a função de educar: se é da família, da igreja ou da escola.
Assim sendo, a exemplo desse modelo de Educação judaica, podemos pensar a nossa Educação com o objetivo de formar indivíduos éticos capazes de refletir e questionar sobre a vida no seu cotidiano e estabelecer relações de alteridade, cabendo a responsabilidade a todos nós, para depois tornar o sujeito autônomo em suas decisões.